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riscos_e_rabiscos

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A vida, a família e os efeitos da crise.

Tenho estado a tarde inteira a corrigir testes. Cada teste que corrigia fazia-me pensar no aluno a quem pertencia e, de seguida, fazia associação com outros.

 

Comecei a pensar quem ficava lá na escola e quem mudaria de escola. Poucos serão os que lá ficam uma vez que alguns já lá estão desde o pré-escolar. E depois há os outros que vão mudar sim, mas por outros motivos. Há aqueles que vão sair daquela escola particular para mudar para uma pública; e há aqueles que vão mudar de escola porque vão para outro país.

 

Infelizmente, a conjuntura económica está a obrigar à desestruturação das famílias, ao abandono do país onde nascemos e que nos devia dar valor e proporcionar condições de vida razoáveis e não de miséria ou de sobrevivência. E com isto refiro-me a alguns alunos que vão sair da escola porque também vão mudar de país. As condições de vida e de trabalho, aqui, estão esgotadas e a única solução que estes núcleos familiares tiveram foi a emigração. 

 

Embora não saiam para além dos limites da União Europeia, foram obrigados a deixar o seu país e toda uma vida (que foi entrecortada) e começar tudo de novo num país estranho e com uma língua que, se calhar, até não se domina. Nestes caso, não se vai sozinho ainda jovem e com a cabeça cheia de sonhos à procura de trabalho para depois se mandar ir a mulher e, a partir daí, começar-se uma vida a dois e formar uma família. Não. Agora vai-se numa altura da nossa vida em que já devíamos ter estabilidade financeira e em que podíamos usufruir alguns prazeres da vida sem ter que fazer contas e pensar no amanhã.

 

Imagino que a nível psicológico deva ser arrasador. Arregaçar as mangas e seguir em frente já não é fácil, muito menos deverá ser num outro país e naquela altura da vida em que apetece tudo menos recomeçar de novo. 

 

Mas é isto que o Passos Coelho quer, não é? Que os jovens e os menos jovens emigrem em busca de melhores condições de vida.  Não é ele que diz que "o desemprego é uma oportunidade para mudar de vida"? Concordo contigo, pá. Realmente muda-se de vida mas não por opção e sim porque somos obrigados a isso. Gostava de ver o Passos Coelho com uma mão atrás e outra à frente a ter de ir à luta sem ajuda de ninguém e com a responsabilidade de mulher e filhos às costas.

 

Pensar nos meus alunos que são obrigados a partir, dói-me.

 

Desabafo.

Mais um mês novo, mais um dia triste. E a vida sempre igual. Devo ter aquilo que a Maya (taróloga) designa como Karma lento mas o meu não é lento, é parado mesmo. A sensação que tenho é que a vida se esqueceu de mim, que as coisas boas não estão destinadas a entrar na minha vida e que em vez da minha vida andar para a frente, anda para trás.

 

Começando por ontem, enquanto toda a gente recebeu o seu ordenado, eu não. Os cheques dos recibos verdes não chegaram. Como já ganho um grande ordenadão e vivo do ar, não preciso de receber no fim do mês como qualquer outro trabalhador. O meu último ordenado chegou apenas para fazer alguns pagamentos de despesas (outros ficaram por pagar), contribuir para a prestação do empréstimo da casa, comprar o passe e mais nada. A minha conta ficou mesmo a zeros. Não deu nem para um café. Café tomado num café mesmo, só ao fim de semana quando o N.vem porque é ele que me paga um ao sábado. 

 

Não sei para onde me virar. Antes ainda ganhava uns tostões a dar explicações mas desde que abriu o centro de explicações aqui, acabou-se! Nunca mais tive alunos. Virei-me para o artesanato fazendo as minhas bijus e as minhas coisinhas em tecido mas não devem ter graça nenhuma pois não têm saída nenhuma. Há pessoas a fazer peças como as minhas e a vendê-las caríssimas mas mesmo assim têm uma saída incrível. Ainda bem que assim é, haja alguém que consiga ter sucesso nos seus negócios. E não me venham dizer que não se vende nada por causa da crise porque não é verdade. Eu não tenho dinheiro, por isso não posso investir em certas coisas que se calhar iriam fazer a diferença nas minhas peças.

 

À minha volta só há coisas que me deitam abaixo e me desmotivam, oiço cada coisa acerca da minha pessoa de rasgar o coração e sem eu as merecer. Acabo sempre lavada em lágrimas e a sofrer calada. Não posso fazer mais nada.

 

Vamos ver que mais agruras me trará este novo mês.

Deprimida.

Cá em casa sabem mesmo como acabar comigo num estalar de dedos. Eu bem me esforço para fugir à depressão, para relevar as coisas mas há dias em que não dá. Não consigo. E hoje está a ser um deles.

 

Depois de almoço começou o meu inferno: o cão ladrava porque o estúpido (apetecia-me mesmo era dizer uma asneira) de um miúdo pôs-se a provocar o cão aqui debaixo da janela. Para ajudar à festa, começaram os implicanços e respectivas gritarias aqui do clã. Eu aguentei, juro que aguentei. Fiquei com uma enxaqueca brutal mas aguentei.

 

Envolvi-me nas minhas costuras mas acabei por desistir. Depois de uma pequena pausa disto tudo, regressa o clã todo a casa e aí começaram as acusações do costume contra a minha pessoa.

Lavada em lágrimas, arrumei toda as coisas. Não protestei nem disse nada, apenas que já não ia fazer nada porque já estava enervada. Caiu o Carmo e a Trindade!!!! Já é habitual, eu nunca posso dizer nada porque ficam todos ofendidos com o que eu digo. Já me habituei a estar calada mas às vezes esqueço-me e digo qualquer coisa.

 

Fiquei completamente arrasada e desmotivada e com as minhas mil interrogações do costume a passarem-me pela cabeça, enquanto as lágrimas caiam na almofada. Depois sou arrebatada com aquele vazio, aquela falta de forças e o nó na garganta. Os nervos abrem-me o apetite (mais uma maldição1) e só me apetece engolir tudo o que me aparece à frente

 

E é nestas alturas que sou fortemente consciencializada do mal que a crise me está a fazer, da minha real incapacidade financeira que me faz depender de outros pois não sou capaz de susbsistir com aquilo que ganho, com o balde de água fria que é ir à luta, tentar fazer coisas para combater esta situação e não conseguir.

 

E é isto tudo que me aniquila, que me deprime profundamente. E as lágrimas soltam-se e lavam-me o rosto como se fossem uma cascata...

O meu (im)posto.

Cada vez percebo menos e cada vez mais me metem a mão ao bolso! E eu vejo e calo-me!

 

Como todos aqueles que me visitam sabem, sou uma professora que trabalha em duas escolas a recibos verdes. Os meus vencimentos resumem-se ao número de dias que trabalho por mês, logo, os meses mais pequenos, com feriados ou férias, é uma miséria. Já nem falando nos meses de pausa lectiva, ou férias, como quiserem designar, em que estou “desempregada” e a viver do ar. Ao parco vencimento (cerca de 500 euros nos meses normais), ainda faço os descontos brutais para a segurança social.

 

Agora pergunto eu: ainda tenho que pagar o Imposto Extraordinário? Então depois vou viver do quê? É que eu não recebo nem subsídio de férias, nem subsídio de Natal, bem pelo contrário! Quando todos os trabalhadores por conta de outrém recebem mais um ordenado, eu recebo metade ou menos do meu ordenado normal.

 

É que trabalhar a recibos verdes não é sinónimo de auferir ordenados astronómicos. Os recibos verdes ganharam de tal forma “popularidade” que muitos de nós, se quisermos trabalhar (e não ter um emprego) temos que nos sujeitar. Não temos alternativa. E para muitos de nós, esta é a actividade principal e única, não é uma outra forma de realizar dinheiro extra.

 

Este é o estado da nação e o meu ainda é pior…

Com ou Sem Açucar?

 

Como o meu sexto sentido costuma ser bem apuradinho e a crise não parece querer ir dar uma voltinha até outras paragens, sempre que vou ao café beber a DDR de cafeína diária, guardo o restante (que é quase todo) do meu pacotinho de açucar.

 

Um dia destes, depois das declarações bombásticas das medidas elaboradas pelo governo do inginheiro Sócras, estava eu agarrada a uma chaveninha de café e a pensar de como iria ser a minha vida daí para a frente, quando a minha consciência começou a mandar sinais de alerta.

Dei-lhe voz e eis que ela me diz "olha lá, já viste as quantidades de açucar que deitas fora? Já viste que desperdício que é ao final do ano? E as pessoas que adorariam ter uma colher de chá de açucar para atenuar a fome? Eu, se fosse a ti, começava a guardar os restinhos..." E assim foi. Daí para a frente comecei a trazer os restinhos comigo.

 

Quem me vê guardar os restinhos do MEU açucar deve pensar que eu sou doida mas eu não me importo nada. Porque se eu tivesse começado a fazer isto desde o início do ano, não me aconteceria o que me aconteceu no fim-de-semana, quando fui às compras: fui até à prateleira do açucar e... estava lá apenas o sítio! E isto em dois supermercados.

Se me perguntarem a minha opinião, eu direi que não há falta de açucar, há é alarmismo causado pela comunicação social e o consequente pânico das donas de casa que estão aterrorizadas com a ideia de não terem açucar para por nas filhóses no Natal, e por isso, compram todas as tonelada que encontrarem num qualquer supermercado.

 

Das duas, uma: o pessoal que anda a comprar açucar por atacado deixa uns pacotinhos para quem vier depois ou este ano filhós, só com canela.

 

É caso para perguntar "com ou sem açucar"?

 

 

Boiando Na Crise.

Acho que hoje acordei de mau humor. Acho, não tenho a certeza. Estou sem grande paciência seja para o que for. Estou sem vontade de mexer uma palha, nem de ouvir as porcarias do costume aqui de casa e com pavio curto para aturar alunos que acham que as aulas já acabaram e que "agora vamos chatear a cabeça à teacher!".

 

E mais, estou revoltada e raivosa. Não achei piada nenhuma áquela medida do governo de ir mexer no 13º mês do pessoal. Não é que eu o receba pois trabalho com a coisa mais horrível ao cimo da terra chamado "recibo verde". Não tenho direito a nada a não ser fazer descontos gigantescos para a segurança social e para as finanças da miséria de ordenado que recebo. Se vos contasse qual é o meu ordenado, até iam pedir para mim à porta da igreja ou para o metro!

 

E tendo em conta isto, passei o dia a fazer contas de cabeça e conclui que o que me sobra ao fim do mês, depois de pagar as contas obrigatórias, são mesmo uns trocos. Não é novidade nenhuma mas às vezes quando nos pomos a pensar, conscientemente no assunto, é que vemos que como somos mal pagos e como nos esfalfamos a trabalhar.

 

Lembrei-me agora de uma senhora encarregada de educação que resolveu fazer-me "exigências" absurdas até que a tive de meter no seu devido lugar ao explicar-lhe que EU não tenho um estatuto igual aos dos outros profes, logo não podem fazer-me as mesmas exigências. Expus-lhe o caso por alíneas e até lhe disse quanto ganhava à hora. Ficou escandalizada.

Desculpa para aqui e para ali e que "não fazia ideia". Pois, às vezes falamos demais.

 

Cada vez que me lembro a fortuna que o nosso governo gastou, num momento de tão grande crise, por causa da vinda do Papa a Portugal...! Não lembra nem ao Diabo. Acho que neste momento o chifrudo está a esfregar as mãos de contentamento e a pôr mais lenha na fogueira pois vai receber mais visitantes. Ai vai, vai.

Lá está, é como já li algures, o Papa veio a Portugal dar a extrema unção pois o país está a definhar e adivinha-se a sua morte em breve. Deus nos ajude pois os governantes...

 

Em resumo, isto hoje não está lá grande coisa. A paciência foi dar uma volta a algum lado e não sei quando volta. Se fosse cão, desatava a morder em tudo e em todos. Era certinho. Será que isto é efeito da alergia? Dos anti-histamínicos? Ou da porcaria do tempo que hoje já me borrifou a cabeça?

 

Instalem-se Confortavelmente

 

Entrem e sentem-se. Hoje tou "lisa" de ideias e pode demorar algum tempinho até que a minha massa cinzenta consiga produzir alguma coisita.

Poderia escrever umas baboseiras sobre o meu dia super monótono mas não me apetece...

Disfrutem desta bela poltrona porque é só hoje que vos deixo sentar nela. Tem um ar apetitoso, não tem? Mas é minha!!!

Se quiserem alguma aguinha, cafezinho, chá, biscoitinhos ou bolachinhas, não me chamem. Levantem o rabiosque da poltrona e vão buscar...!

Eu vou estar em meditação, reflexão, transe... qualquer coisa assim.

A minha preguiça mental começa a preocupar-me.